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Oficina no Iphan busca resgatar relações afetivas da sociedade com o patrimônio cultural

Corumbá (MS) – A Oficina “Experiências e vivências na lida com a cal”, ministrada pelo restaurador Antonio Sarasá no Iphan, na tarde desta quinta-feira (26.05) durante o 16º Fasp, apresenta o material “cal” como um “fator físico, de restauro, mas também como um fator simbólico, para mostrar a aglutinação da sociedade com os órgãos de preservação”.

“A cal é um produto que foi descoberto pelo ser humano há mais de dez mil anos, e ele foi um material ligante muito interessante. Então para o resgate dos saberes e fazeres e para o resgate da legislação do próprio ser humano a gente vai lembrar dos nossos antepassados, buscar essa informação dos nossos antepassados e trazer para a transformação hoje e levar para as gerações futuras. E a cal tem essa força, tem esse poder, porque serviu de construção há mais de dez mil anos na Palestina, Jericó, Egito, e durante mais de 450 anos no Brasil também utilizando a cal. Então ele é um material aglutinante, para nós ele é um símbolo de aglutinação também das pessoas cm o patrimônio. Ele é um fator físico, de restauro, mas para nós também é um fator simbólico, para mostrar essa aglutinação da sociedade com os órgãos de preservação”, explica Sarasá.

Para ele, cria-se essa relação do ser humano com o patrimônio cultura através da educação patrimonial. “O gestor do patrimônio tem essa função. Os restauradores fazem a matéria, os arquitetos eles têm essa relação toda da aprovação dos projetos mas os gestores culturais  têm essa obrigação de passar esses conhecimentos para as gerações futuras. Então o patrimônio histórico é aquele que tem o poder de transmissão. E essa é uma das ações que a gente faz aqui nessa oficina, é a função do gestor cultural de ir buscar esses elementos de simbolismo, elementos de relação de pertencimento, elementos de amores das pessoas a esse patrimônio e passar para as gerações futuras. Esse é o grande mote, e a cal é um desses símbolos é aquele aglutinador, é aquele que vai chamar a comunidade aquele que liga, e aqui nós estamos fazendo isso, quase como uma cal, chamando a sociedade para estabelecer esses valores novamente”.

Esta é a primeira participação do restaurador Antonio Sarasá, do Estúdio Sarasá, no Festival América do Sul Pantanal. Ele afirma que essa troca de experiências é muito importante. “A gente fala que a gente só vem aqui assoprar os corações das pessoas porque essa brasa está lá, a gente só vem aqui assoprar. Essa troca é muito gratificante, sentir esse calor e essa produção cultural que tem aqui nesse festival. E o Estado está de parabéns, porque esse é o momento da transmissão, o Festival é onde a gente tem essa troca, essa possibilidade de transmitir esse conhecimento”.

A arquiteta Paola de Oliveira, participante da oficina, conta que se formou no Rio de Janeiro, morou 22 anos em Curitiba e agora está de volta a Corumbá. Ela se diz fascinada com esse mundo de restauro, “de preservar o que a gente tem lá de tempos atrás”. “É uma arte que me fascina, eu chamo isso de arte. Voltei para Corumbá e estou tentando trazer essa cultura mesmo, estou encantada com o casario e com tudo que tem aqui e fico triste ao mesmo tempo de ver o pessoal não valorizando, querendo derrubar tudo, achando que o novo que é o bonito. As técnicas que o Sarasá começou a passar aí é a base de tudo para a gente levar e colocar em qualquer obra e em qualquer coisa porque faz muito sentido”.

Ana Paula Badari, arquiteta do município de Corumbá, decidiu fazer a oficina porque já trabalhou na área de patrimônio histórico. “Sou uma entusiasta dessa área, moro em Corumbá, trabalho para a Prefeitura não diretamente nessa área, mas sempre a gente pega uma obra ou outra na área tombada, então é interessante ampliar o nosso conhecimento até para convencer as pessoas da importância de preservar as técnicas e a própria arquitetura”.

Outra participante, a também arquiteta Adriana Ferreira da Silva, trabalha no Iphan em Corumbá, e disse que o que está aprendendo na oficina “é de uma grandiosidade que não dá para ser estimada”. “Hoje eu estou atuando no Iphan, trabalhando diretamente com o patrimônio, então não dá para mensurar esse valor e esse trabalho que a gente vai passar para a frente. A partir do momento, eu como arquiteta, adquiro esse conhecimento, atribuo esse valor a esse tipo de material utilizado à época, a gente vai estar passando isso pra frente, passando pros moradores, pros profissionais que buscarem informações aqui conosco. É muito grandioso esse conhecimento que ele está passando aqui pra gente”.

Lauzi Xavier Salazar é arquiteta da Prefeitura de Corumbá e explicou que na sua cidade trabalha-se muito com projetos de restauração, que é uma demanda que está cada vez maior. “O que eu percebo é que cada vez mais a gente está conseguindo, o Iphan, juntamente com a Prefeitura e o Estado também, sensibilizar as pessoas a valorizar o patrimônio histórico. Então com isso, a demanda e o serviço, a gente tem muito otimismo que aumente e tenha mais respeito pelo patrimônio cultural. O meu principal objetivo é agregar mais conhecimento, me especializar cada vez mais me profissionalizar nessas técnicas para a gente poder aplicar nos nossos prédios públicos e históricos”.

Serão três dias de oficinas: na tarde de quinta-feira (26) foi feita a sensibilização os participantes, contando a história e a parte teórica; na sexta-feira (27) será feita a confecção das argamassas, e no sábado (28) vai ser a pintura a cal, “vamos fazer uma palheta de cores para ver a potência que tem essas pinturas”, explica Sarasá. “As pessoas que estiverem participando vão criar essas argamassas, a partir do momento em que a argamassa é a manifestação da própria fé do ser humano. Você vai buscar das areias, das montanhas naturais para construir as montanhas e os templos artificiais”.

Texto: Karina Lima

Fotos: Mauricio Costa Júnior

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